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Quinta-feira, 21 de Junho de 2018

Estilo

Jussara Maturo - 25/05/2018

Skinny não faz mais história

A declaração é de Adriano Goldschmied, cuja carreira profissional se confunde com a história do jeans mundial, que esteve no Brasil na semana passada para uma série de palestras

“Nascida em 2005, a skinny não faz mais história”. Não é apenas uma frase de efeito porque a declaração parte de um dos profissionais que mais entende da indústria do jeans mundial. Convidado da Vicunha Têxtil, Adriano Goldshmied recomendou à plateia avaliar modelagens femininas como cintura alta, mommy jeans sexy, straight legs, cropped tappered, cropped culotte que estão em alta no mercado internacional de ponta, para reconhecer em seguida que a transição é difícil no Brasil, “mercado onde a questão da feminilidade é importante para as vendas”.

Em termos de tecido, afirma que atualmente o denim stretch é mais importante do ponto de vista comercial para as coleções masculinas do que para as femininas; que as mulheres de 25 a 35 anos andam preferindo calças feitas com tecidos mais pesados de 11 a 12 oz, com fios de trama mais evidenciados, como era na década de 1990.

Para a lavanderia, diz que o vintage permanece apenas para o masculino. Os bigodes tendem a ser menos pronunciados, assumindo formas mais achatadas. As tramas diagonais deverão ser destacadas em processos de lavanderia, explorando efeitos diferentes. As lavagens vão variar de média para média clara, que são cores de verão, aponta.



DO BÁSICO PARA O FASHION
Ao fazer suas análises sobre o futuro do jeans, Adriano faz um aparte. “No Brasil, o jeans é fashion”, afirma. Antes disso, ao abrir a palestra do último dia do evento, ele já destacara que o país é desde sempre um grande consumidor de jeans. “E não só por sua grande população, mas porque o jeans entrou no espírito e na consciência dos brasileiros”, enfatiza. No resto do mundo, porém, os básicos ainda representam a maior fatia das vendas. Mas isso tem mudado, destaca, com o jeans fashion ganhando terreno no total das vendas.

Outro ponto que o italiano radicado nos Estados Unidos há quase 20 anos ressalta tem a ver com um fenômeno que parecia estar restrito ao Brasil: o jeans sem alma. “Hoje é difícil olhar para um jeans e saber qual é a marca dele, como acontecia no passado”, admite com certa tristeza. O lado positivo dessa pasteurização do jeans foi que o consumidor aprendeu a comprar, começando a comparar preço e outras características do produto para escolher. “Mas se a indústria der personalidade ao jeans as pessoas mudam o comportamento de consumo”, argumenta.

NOVAS FRONTEIRAS
Movimentos do próprio mercado têm alargado as fronteiras do denim por conta da busca de inovação, em formas, tecido, lavanderia, modo de produção. Contente, diz que o jeans quebrou a resistência de marcas consagradas de luxo que passaram a incluir o tecido em suas coleções, como Tom Ford, Gucci, Balmain, Balenciaga e Prada. “Essa decisão representa uma grande vitória para o denim”, entende Adriano. Para ele, a indústria do jeans tem que responder ao mercado, e ir além, buscando inovações. E cita como exemplo o projeto no qual está envolvido, o silk denim, que baseia a produção do tecido na construção do fio de seda.

Assim como para a moda em geral, ele entende que não é nada promissor o futuro da indústria do jeans vinculada à mão de obra barata com ainda persiste em Bangladesh e em outros países asiáticos. Simplesmente porque o emprego da tecnologia, o conceito 4.0, vai mudar esse cenário. “E até porque os mercados de consumo não suportam mais trabalhar com prazos longos de entrega, como aguardar um jeans que fica três meses num navio”, avalia, prevendo a volta das fábricas aos grandes mercados consumidores. Ele fala sobre a condição do mercado internacional, uma vez que, nisso, o Brasil tem a vantagem de ter a produção próxima do consumo no caso do jeans.

POR QUÊ VALE A PENA OUVIR ADRIANO GOLSCHMIED
Para explicar sua presença no Brasil, o italiano abriu a palestra Futuro do Denim e Evolução do Mercado dizendo em tom de brincadeira que sua autoridade sobre o assunto resulta de uma vantagem dele. “Minha carreira tem mais tempo que a de vocês”, constata, diante de uma plateia formada por uma maioria bem mais jovem do que ele. Em seguida, começa a contar sobre sua história com o denim, levando a uma verdadeira aula do jeans moderno.

Nasceu em Trieste, cidade italiana que faz divisa com a Iugoslávia, e que na segunda guerra mundial foi tomada por soldados americanos, que viveram por lá tempo suficiente para trocar a farda pelo jeans nos momentos de folga, tipo de roupa que não era comum na Europa e que marcou a infância do menino. Em 1971, já adulto, decidiu que seu primeiro trabalho seria uma loja de jeans, aberta na cidade Cortina D’Ampezzo, famosa estação de esqui italiana frequentada por celebridades locais e do jet set internacional. Eram clientes exigentes, que faziam pedidos que o jovem empresário se esforçava para atender, passando a viajar para encontrar o que eles queriam.

Mas, inquieto, “ficar numa loja esperando clientes não era minha vocação”, explica, decidiu produzir aquilo que não encontrava. O nome da loja King’s Jeans batizou sua primeira marca. Na primeira coleção já passou a vender calças de denim por U$ 80, quando o jeans vendido nas lojas europeias custava meros U$ 8. “O jeans daquela época era diferente do de hoje. Era barato, usado por operários. Os ricos da Europa não queriam usar”.

Eram também meados da década de 1970 e a juventude do mundo ocidental reivindicava mudanças, não apenas políticas, com a forte oposição à guerra do Vietnã, como também sociais e de costumes. “Naquele momento o jeans virou uma bandeira para os jovens”, lembra Adriano. Impulsionado por esse estado de espírito e junto com outros criativos, criou o Genius Group, uma empresa que não produzia nada mas vendia serviços de apoio às vendas, a criação de marcas, projetos. Desse núcleo surgiu a Diesel, a Replay e outras marcas que ficaram pelo caminho.

A partir daí, a história de Adriano se confunde com a história moderna do jeans. Está entre os primeiros na indústria a alterar a aparência original do denim usando pedra e cloro para desgastar a roupa. Isso mudou o método de trabalho para sempre, constata o italiano, sem estrelismo, também sem falsa modéstia. Nessa timeline, o movimento seguinte foi quando em 1984 desenvolveu o primeiro jeans no qual aplicou bigodes. Depois, ele deixou a Genius e abriu a Team Kit para desenvolver projetos criativos não só na Itália, tendo trabalhado com marcas dos Estados Unidos e do Japão.

Na década seguinte, em 1992, ano da realização no Brasil da conferência mundial da ONU sobre meio ambiente e desenvolvimento, no Rio de Janeiro, a Eco-92, Adriano lançou a primeira coleção com sua assinatura feita de liocel e produzida nos Estados Unidos, que ele trata como uma iniciativa de sustentabilidade. Foi também o embrião, diz, do que quatro anos mais tarde levou à criação de um mercado até então inexplorado, o do denim de luxo (que por aqui ficou conhecido como denium premium).

Já morando em Los Angeles desenvolveu uma cápsula para a Gap, a 1969, usando selvedge denim japonês. Era o denim de luxo chegando às massas, aponta, contando que todas as vitrines das lojas da GAP nos Estados Unidos tinham um corner com o selvedge denim. Lembra dos primeiros jeans elastizados na década de 1980. “Eram peças horrorosas, com tecido feio, pesado e de elasticidade muito limitada”, lamenta. Então, realça que em 2005 a tecnologia do fio de elastano avançou, tendo resolvido muitos desses problemas, e os fabricantes começaram a lançar artigos de denim elastizado cada vez melhores.

Para a lavanderia, defende que não há outro caminho senão a adoção de tecnologia para efeitos, porque permite “a beleza do jeans e a capacidade de reprodução”.