Redução tarifária é assimétrica e depende da aprovação legislativa dos países dos dois blocos para passar a valer

Concluída no último sábado, 17 de janeiro, a assinatura do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia representa um marco histórico após 26 anos de negociação ao criar uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, abrangendo um mercado de cerca de 720 milhões de consumidores. Mas a conquista diplomática ainda não se traduz em mudanças imediatas no comércio. O acordo só entrará em vigor após a ratificação pelos congressos dos países do Mercosul e pelo Parlamento Europeu, processo que pode levar meses ou até anos, a depender do ritmo político e das discussões internas em cada país.
Em tese, a União Europeia se compromete a eliminar tarifas sobre grande parte dos bens industriais do Mercosul, incluindo produtos têxteis e vestuário. No entanto, a contrapartida do Mercosul para a entrada de produtos europeus é mais cautelosa, com cronogramas mais longos e tratamentos diferenciados para itens considerados sensíveis, com adoção de mecanismos de proteção da cadeia produtiva.
Pelo cronograma de ratificação, primeiro o texto precisa ser aprovado pelo Parlamento Europeu, que avaliará o acordo e seus anexos técnicos. Em seguida, cada um dos 27 países-membros da UE deve ratificar o tratado em seus respectivos parlamentos, um processo que pode se estender por meses. No Mercosul, a tramitação ocorre nos congressos de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
IMPACTO NO SETOR
Para as empresas brasileiras, a combinação entre abertura europeia e proteção gradual do mercado interno cria desafios simultâneos. A possibilidade de reduzir custos de exportação e ganhar competitividade na UE pode estimular investimentos em produtos de maior valor agregado, como tecidos técnicos, denim premium, malharia diferenciada e vestuário sustentável. De outro lado, a concorrência com produtos europeus deve crescer ao longo do tempo, exigindo que a indústria local acelere sua modernização.
Outro ponto de atenção é que o acordo não se resume a tarifas. Regras de origem, sustentabilidade, rastreabilidade e padrões regulatórios ganham peso, especialmente para o mercado europeu, que está implementando o Passaporte Digital de Produtos (DPP). Isso pode exigir investimentos adicionais das empresas brasileiras para adequação e certificações.
MÁQUINAS E VAREJO
Ainda que a produção europeia têxtil de massa (fios e tecidos básicos) tenha migrado para a Ásia, a Europa ainda é a maior produtora global de tecidos tecnológicos e de luxo. É forte a produção de tecidos técnicos e funcionais na Alemanha, produtos que hoje enfrentam tarifas de 26% a 35%, e que podem cair até zero.
A redução tarifária incidirá também sobre as máquinas têxteis europeias. O Brasil importa tecnologia de fiação e tecelagem da Europa. A queda das barreiras poderia reduzir o custo de modernização das fábricas brasileiras. Dados da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), apontam que o bloco europeu é a 2ª principal origem das importações de máquinas para indústria têxtil e de confecção do Brasil, com US$187 milhões importados em 2024.
O fim ou a redução gradual de tarifas de importação para produtos europeus poderá representar preços menores no varejo brasileiro para redes como Zara e H&M, assim como para marcas de luxo europeias com operação no Brasil. Poderia atrair, ainda, mais empresas europeias para o Brasil, como a recente decisão da Inditex de estrear com a Bershka.
INDÚSTRIA LOCAL COMEMORA
Por comunicado oficial, a Abit celebrou o acordo Mercosul-UE por considerar que traz múltiplas oportunidades. Entre as quais, a entidade cita aumento de investimentos e cooperação tecnológica; diálogo cultural e fortalecimento de setores criativos; qualificação e desenvolvimento de pessoas.
Conforme a Abit, o Brasil exportou para a União Europeia US$66 milhões em 2025, com destaque para as vendas de fios de seda, vestuário e nãotecidos para uso técnico. Os principais destinos são França, Portugal e Holanda. Ao mesmo tempo, em 2025, o Brasil importou do bloco europeu US$333 milhões em vestuário, tecidos técnicos, nãotecidos e filamentos de poliamida.
Pelo acordo negociado, a União Europeia eliminará tarifas de importação sobre aproximadamente 95% dos bens, que representam 92% do valor das importações europeias de bens brasileiros, em cestas de desgravação (redução ou eliminação de tarifas) de modo imediato ou linear em prazos de que variam de 4, 7, 8, 10 a 12 anos.
Já a oferta do Mercosul para a UE abrange liberalização tarifária imediata ou linear ao longo de 4, 8, 10 ou 15 anos. Essa oferta cobre aproximadamente 91% dos bens e 85% do valor das importações brasileiras de produtos provenientes da União Europeia, diz o governo.
A Abit ressalta que teve participação ativa no acordo em conjunto com a Euratex (European Apparel and Textile Confederation). Juntas as entidades entregaram aos governos um cronograma de desgravação definido por produto. “Os artigos têxteis e confeccionados estão em várias categorias que levarão até oito anos para serem desgravadas, contados a partir do início da vigência do acordo. Cada produto, além do cronograma de desgravação de tarifas, terá sua própria regra de origem que deverá ser observada para obtenção do respectivo benefício de redução tarifária”, diz o comunicado da Abit.
foto: divulgação Mercosul (cerimônia da assinatura histórica do acordo)




