Com salto de 22% no volume de acordos, mercado acompanha o gigante chinês de marcas esportivas assumir o controle da Puma

Após o represamento de negócios envolvendo fusões e aquisições de empresas de moda (M&A, do inglês merge and acquisition), o ciclo de reset estratégico global ganhou impulso nos últimos 4 meses. E chegou aquecido no início de 2026. Em uma das maiores movimentações, a gigante chinesa Anta Sports (dona de Fila, Wilson e Salomon) adquiriu 29% do capital da alemã Puma, assumindo posição majoritária. A fatia foi comprada da família Pinault, do grupo francês Kering. O acordo selaria a saída dos donos da Gucci, Balenciaga e Saint Laurent do segmento esportivo para focar exclusivamente no segmento de marcas de luxo.
A Anta Sports concordou em pagar o equivalente a US$1,8 bilhão pela participação acionária na Puma. Devido à natureza do acordo, a troca de participação não é imediata. Por comunicado de imprensa, a Anta Sports informou ter expectativa de concluir a transação até o final de 2026.
Para a Anta Sports, a Puma oferece escala global, distribuição consolidada na Europa e nos Estados Unidos e uma marca com apelo esportivo transversal. Para a Kering, a venda representa a continuidade de uma estratégia de enxugamento de portfólio e foco exclusivo no luxo, após anos de tentativa frustrada de reposicionar a Puma dentro do grupo.
NOVO MAPA DE PODER
Entre outubro de 2025 e janeiro de 2026, o mercado internacional de moda registrou uma aceleração estimada em 22% no volume de fusões e aquisições, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Os dados da moda constam do relatório Global M&A Trends, elaborado pela consultoria PwC.
Apesar da alta no volume de fusões e aquisições, a PwC aponta três riscos críticos nesse tipo de operação. Pode haver dificuldade de integração devido ao choque de culturas das empresas; órgãos antitruste mais rigorosos com fusões que criam monopólios setoriais; e a volatilidade de insumos provocada por fenômenos externos como crises climáticas e tensões geopolíticas.
PRINCIPAIS NEGÓCIOS
De outubro de 2025 até a última semana de janeiro, o mercado internacional foi inundado por anúncios envolvendo M&A. Algumas já esperadas e outras surpreendendo.
Anta Sports: compra 29% da Puma. Desde o ano passado, cresceram os boatos sobre as dificuldades da Puma em manter posição no mercado, pressionada por marcas mais novas como On Holding e Hoka. Houve até especulação da associação com a Adidas, que também não enfrenta situação mais confortável.
Gildan Activewear adquire a Hanesbrands: por US$2,2 bilhões. A transação concluída em dezembro de 2025 cria um gigante do vestuário básico com receita anual projetada de US$6,9 bilhões.
Skechers: nova proprietária, a 3G Capital fecha o capital da Skechers por US$ 9 bilhões no final de 2025. Retira, assim, a companhia do mercado acionário para implementar um plano de eficiência operacional longe da pressão de investidores.
Authentic Brands Group compra 51% da Guess: fundadores da marca, os irmãos Marciano mantiveram os 49% restantes. Intenção é alcançar expansão global com estrutura financeira mais leve.
Prada adquire a Versace: já anunciada em 2024, a conclusão da aquisição ocorreu no final de 2025. Após a Tapestry ser impedida por órgãos reguladores de comprar a Capri Holdings, forçando o desmembramento do grupo.
Next Plc compra a também britânica, porém falida, Russell & Bromley: em janeiro por £18 milhões. Conforme as empresas, a operação incluiu a marca, a propriedade intelectual e três lojas estratégicas. As vendas da marca de calçados serão integradas à plataforma digital da Next.
MAIS NEGÓCIOS
Após a instabilidade enfrentada pelo setor de moda entre 2024 e grande parte de 2025, o período de consolidação e ajuste de portfólio é atribuído pelo mercado internacional a fatores estruturais. Entre os quais o estouro da bolha do e-commerce, com marcas que cresceram artificialmente durante a pandemia de Covid-19 e que chegaram ao limite de caixa ao final de 2025, abrindo espaço para aquisições a preços considerados atraentes.
Também pesou a estratégia de blindagem tarifária contra os efeitos do aumento de tarifas de importação nos Estados Unidos — incluindo alíquotas de até 145% sobre calçados chineses. Isso acelerou a busca por fábricas, fornecedores ou plataformas logísticas em regiões isentas.
LVMH compra participação majoritária no ecossistema produtivo italiano Nuti Ivo: inclui a Nuti Ivo SpA, especializada em couro bovino premium; e a Ulivieri & Nardi, focada em couros vegetais sustentáveis. O objetivo é proteger margens e criar barreiras competitivas.
Kering investe na TIL (Toscana Ingegneria Lavorazione): busca exclusividade em manufatura técnica e prototipagem.
Lululemon: o fundo ativista Elliott Investment Management adquire cerca de US$1 bilhão em ações da marca canadense, de forma a pressionar por mudanças estratégicas na companhia após a queda de 45% no valor dos papéis em 2025. O embate resultou no anúncio da saída do CEO Calvin McDonald em 31 de janeiro e expôs a disputa de poder com o fundador Chip Wilson. Apesar da turbulência, a Lululemon mantém planos de expansão para seis novos mercados internacionais em 2026.
VF Corporation vende a Dickies: comprada pela Bluestar Alliance por US$ 600 milhões. Operação faz parte do plano de redução de dívida. Antes, a VF já vendera a Supreme, à EssilorLuxottica, assim como separou suas marcas de jeans (Wrangler, Lee e Rock Republic) concentradas na Kontoor Brands. O desinvestimento passou por outras marcas de menor expressão.
Centric Brands adquire a Vingino Group, marca de jeans infantil: transação visa expansão internacional apoiada na infraestrutura de design e varejo da empresa holandesa.
NEGÓCIOS MENORES
A japonesa Marubeni Corporation compra a marca britânica de tênis Gola: não foi só a grife. A operação envolveu a compra do Jacobson Group Limited, responsável pelo desenvolvimento e distribuição dessa e de outras marcas de calçados.
O novo grupo de luxo Hulcan compra o falido varejista Matches e a marca Raey: com planos de relançamento omnichannel em 2026, em transação com o Frasers Group.
Por sua vez, o Frasers Group adquire participação majoritária na varejista de luxo americana de multimarcas The Webster.
MadaLuxe Group compra participação majoritária na joalheria Ippolita.
Gordon Brothers adquire o controle da marca Rachel Zoe, com foco em expansão via licenciamento.
foto: nova loja da Puma em Londres, aberta em dezembro



