As etapas do processo das resinas glioxálicas
Até bem pouco tempo, ao verificarmos peças importadas, nos deparávamos com exemplares que tinham características no mínimo intrigantes. As mais marcantes ficavam por conta do brilho existente na superfície do tecido que, na maioria dos casos, não apresentava fibras sintéticas na composição; dos contrastes marcantes não só entre o urdume e a trama, como também entre os desgastes localizados e o fundo intenso; do aspecto flat conferido às peças com ausência de flocados ou efeito “sal pimenta”.
Hoje é possível criar e reproduzir visuais tão interessantes quanto os conferidos pelos formadores de opinião internacionais do segmento jeanswear. Os resultados são obtidos a partir do emprego de resinas disponíveis no mercado brasileiro. Porém, por se tratar de processo com muitas particularidades, é preciso que as beneficiadoras de jeans tenham equipamentos, estrutura, matéria-prima e mão-de-obra adequados a todos os parâmetros utilizados para obter esse tipo de efeito.
Existe no mercado uma infinidade de tipos de resinas, cada um com princípios ativos específicos e direcionados para um tipo de resultado. Para os efeitos de que vamos tratar, a resina utilizada é da classe glioxálica.
As resinas glioxálicas são agentes passíveis de reticulação (formação de retícula superficial/filme), solúveis em água. Quando em estado líquido, reagem com a fibra, propiciando brilho superficial, toque macio e caimento encorpado. Os resultados podem ser potencializados e diversificados com o uso adicional de auxiliares como penetrantes, catalisadores e amaciantes.
Para se obter peças resinadas normalmente são adotadas as seguintes etapas de processo:
- APLICAÇÃO
- PRÉ-SECAGEM
- DIFERENCIADOS INTERMEDIÁRIOS
- RETICULAÇÃO
- DIFERENCIADOS FINAIS
- PROCESSAMENTO EM LAVANDERIA (ESGOTAMENTO)
APLICAÇÃO
Essa etapa do processo é fundamental para ter um resultado satisfatório. Nas lavanderias, as resinas são aplicadas na maior parte dos casos no tecido ainda bruto. Fatores como regularidade na aplicação, controle na quantidade de produto aplicado por peça, penetração da resina, tempo de aplicação/produtividade e consumo são levados em consideração para a escolha da forma de aplicação mais adequada à lavanderia.
As formas mais freqüentes de aplicação se dão por jato (spray), por aplicação manual ou imersão.
Por jato (spray): Nesse tipo de aplicação, a solução de resina entra em contato com a peça pelo uso de pistola com ar comprimido. Essa forma de aplicação garante regularidade e produtividade, porém, exige atenção quanto à penetração da resina no tecido. A má penetração normalmente é indicada pela formação de gotículas na superfície do tecido. A economia de produto também deve ser levada em consideração.
De forma manual: Nessa opção, a resina é aplicada com o uso de pincéis, feltros, espumas, entre outros materiais que são impregnados com a solução de resina e, depois, passados nas peças colocadas geralmente em infladores. A técnica garante penetração satisfatória, desperdício reduzido, porém, fatores como produtividade e nível de regularidade na aplicação devem ser considerados.
Por imersão: Nesse caso as peças são imersas em recipientes contendo a solução de resina e, em seguida, centrifugadas para a retirada do excesso de produto. Esse tipo de aplicação garante produtividade satisfatória, regularidade de impregnação e alto grau de penetração. Permite, ainda, a captação do produto excedente proveniente da centrifugação. O maior desafio está em controlar a regularidade na quantidade de resina aplicada em cada peça. Isso geralmente é feito controlando a quantidade de peças imersas no recipiente, o tempo de imersão e centrifugação e a partir da execução de testes que identifiquem a quantidade de produto existente em cada peça.
Testes devem ser realizados periodicamente para que sejam alcançados de forma satisfatória os parâmetros ideais para os tipos de aplicações mencionados
PRÉ-SECAGEM
Na maior parte dos casos, as peças passam por algum tipo de trabalho antes da reticulação. Para que isso seja possível, após a impregnação, as peças precisam passar por uma pré-secagem. Essa etapa do processo é fundamental por possibilitar uma melhor manipulação das peças antes da reticulação definitiva. A pré-secagem pode ser realizada em forno ou em secador tambler convencional.
DIFERENCIADOS INTERMEDIÁRIOS
Para garantir visuais cada vez mais inovadores, grande parte das peças resinadas passa por trabalhos diferenciados antes da reticulação como aplicação de bigodes bi ou tridimensionais, vincos e nervuras. Esses efeitos quando realizados antes da reticulação possibilitam um visual final mais elaborado, pois há criação de memória (fixação das dobras e relevos).
RETICULAÇÃO
Tão importante quanto a aplicação, esta etapa consiste em reticular a resina aplicada criando, assim, uma espécie de filme na superfície das peças. A reticulação é efetuada em fornos. Para que haja regularidade entre as peças, o equipamento deve garantir índices baixos de variação de temperatura interna. A regularidade também é garantida a partir do controle da quantidade de peças colocadas em cada fornada, o espaço entre as peças no interior desse equipamento contribui para a circulação da temperatura de forma homogênea.
Como existem diferentes tipos de resinas glioxálicas, as temperaturas e os tempos ideais para a reticulação variam conforme o produto e o fornecedor. Geralmente, a reticulagem se dá entre 140 a 160°C num tempo que oscila entre dez e 20 minutos. A relação entre o tempo e a temperatura é inversamente proporcional, ou seja, quanto maior a temperatura, menos tempo a peça deve permanecer no forno.
É fundamental que haja um equilíbrio entre a quantidade de resina aplicada, a temperatura e o tempo de reticulagem. O desequilíbrio entre essas variáveis pode resultar em perdas, necessidade de refazer processos até garantir a fixação da resina na peça conforme o planejado. Quando o desequilíbrio se dá por excesso de resina aplicada, tempo ou temperatura, os riscos por perda excessiva na resistência do tecido são freqüentes ocasionando perda das peças.
Após a reticulação, recomenda-se que as peças fiquem em repouso para que haja recuperação da umidade da fibra de algodão, aumentando a resistência das roupas para as próximas etapas do processo. Por se tratar de recuperação de umidade, o tempo de descanso é relativo – está diretamente relacionado ao percentual de umidade do ar no ambiente.
DIFERENCIADOS FINAIS
Após a reticulação, são aplicados às peças processos diferenciados como lixados, escovados, jatos de areia, aplicações de laser, jatos de pigmentos, e outros, evidenciando também as marcações obtidas nos diferenciados intermediários. As abrasões físicas são as mais recomendadas por não apresentar risco de reações químicas com a resina. Desgastes químicos podem ser empregados, porém, testes preliminares devem ser realizados para que haja previsão e controle das possíveis reações.
ESGOTAMENTO
Após todas as etapas citadas, as peças passam pela lavanderia para serem trabalhadas nas operações tradicionais como desengomagem, estonagens, neutralizações, amaciamentos e outras.
*Gleison Carneiro é consultor em washdesign
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