Covid-19 está fazendo o mundo repensar a estrutura industrial têxtil, muito concentrada na Ásia, e pode beneficiar o Brasil.
Nem todos os efeitos da pandemia de covid-19 são tóxicos. Para três grandes empresários brasileiros, cresce a expectativa de que as cadeias produtivas globais serão redesenhadas no pós-pandemia. “Talvez um dos efeitos da pandemia seja a nacionalização das cadeias de produção. E o Brasil tem plenas condições de atender a demanda brasileira de têxteis e confecção”, afirmou Josué Gomes da Silva, presidente da Coteminas, em webinar promovido pela Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção). Flávio Rocha, presidente da Riachuelo, concorda com essa análise. E acrescentou: “Vai se valorizar efetivamente ter uma cadeia produtiva ao alcance dos seus olhos”.
É uma visão compartilhada por Ricardo Steinbruch, presidente do Conselho de Administração da Vicunha. “Estamos sentindo clientes da Europa, que antes estavam muito focados na Ásia, voltando, querendo se abastecer dentro da bacia mediterrânea, olhando com outros olhos fornecedores brasileiros. Sobre esse aspecto, acho que vai haver um novo redesenho das cadeias de suprimento em nível mundial”, reiterou o empresário.
Ele avalia que a crise da covid-19 será longa e que o atual nível de câmbio pode beneficiar a cadeia têxtil brasileira. “Isso vai fazer com que haja um reposicionamento de compras na cadeia têxtil mundial”, disse. Steinbruch deu como exemplo a Itália cuja “indústria da moda está fortemente interessada em voltar a produzir internamente”.
ELOS DA CADEIA NÃO PODEM QUEBRAR
Os três empresários argumentam que o Brasil tem plenas condições de desempenhar papel mais relevante no abastecimento da cadeia mundial. Uma das razões está no fato de ser uma indústria altamente verticalizada. Conta desde a fibra, como algodão, até o varejo de moda, passando por fiação, tecelagem e confecção de roupas, entre outros elos intermediários. Será uma mudança de paradigma porque até o momento o país tem se mantido muito local, ressaltou Steinbruch, da Vicunha.
Ele defende união entre os elos da cadeia nacional para atravessar a crise de modo não deixar quebrar nenhum deles. “Em vez de procurarmos diversificar demais, se neste momento nós pudermos concentrar, eu acho que é um jeito de nossa contribuição ao nosso país, de gerar mais empregos internamente. E deixar, momentaneamente, esses empregos fora para seus países, que vão ter que lidar com isso”, disse o presidente do Conselho de Administração da Vicunha.
RIACHUELO VAI DESCENTRALIZAR A COSTURA
Josué Gomes da Silva, da Coteminas, concordou: “Já há interesse de países grandes e destinos importantes de têxteis da Ásia começando a olhar com muito bons olhos a recolocação de pedidos para a América Latina”. Mas, ressaltou que questões de fundo teriam que ser superadas para o Brasil assumir esse novo papel. “Se nós desonerarmos a produção, desonerarmos o trabalho, desonerarmos o investimento para a indústria têxtil e de confecção brasileira, aí, nós podemos alcançar voos ainda mais altos”, completou. Na lista de medidas, ele incluiu ainda a reforma tributária.
Rocha, da Riachuelo, contou que a empresa tem discutido formas de valorizar a cadeia nacional, integrada. Entre as medidas está a decisão de fortalecer o Pro-Sertão. O programa prevê a descentralizar a costura para unidades menores. Os trabalhos seriam enviados para oficinas no interior do Rio Grande do Norte, da Paraíba e do Ceará. Segundo o empresário, a medida substituiria parte das importações da empresa. “E vamos centralizar etapas como tinturaria e tecelagem”, disse.