Concorrência leva empresas a buscar fibras naturais e de apelo sustentável, mas Brasil ainda proíbe cultivo para uso industrial.

Desde meados do ano passado, começou a aparecer o denim de cânhamo nas feiras internacionais. A concorrência por inovação levou mais fabricantes a investirem no uso de fibras naturais e de apelo sustentável na produção do denim. No Brasil, o mercado aguarda
alguma manifestação de demanda. Também a situação jurídica que proíbe o cultivo da planta no país atua como empecilho nessa competição.Maior fabricante do Brasil, a Vicunha informa ao GBLjeans que tem planos de produzir denim de cânhamo, uma vez que a importação de fio é permitida. Explica que a equipe de desenvolvimento de produtos estuda o uso da fibra. Mas sem data definida para lançamento.
Na Cedro, Edson de Paulo Gonçalves, gerente de desenvolvimento e inovação do fabricante, diz que não está nos planos da empresa, por enquanto, trabalhar com o cânhamo. “Até o momento não tivemos demanda por parte dos clientes por esse tipo de material. Chegamos a ver em pesquisa. Mas a gente sabe que o mercado tende cada vez mais para fibras diferenciadas”, comentou o executivo.
A empresa ressalta que está muito empenhada com a campanha Jeans do Brasil. No momento, não busca alternativas que demandem importação, como é o caso do cânhamo atualmente. O algodão permanece como o insumo mais utilizado na empresa.
A Santista avalia a fibra de cânhamo. Contudo, acrescenta que não tem planos para lançar denim de cânhamo neste ano.
A Capricórnio acha interessante o emprego do cânhamo como fio de trama. “Mas não temos nenhum projeto em desenvolvimento”, informa a empresa.
“Por enquanto não houve interesse na utilização do insumo”, afirma a Canatiba.
CONCORRÊNCIA INTERNACIONAL
Mesmo no mundo, o cânhamo vaga por uma cadeia complexa e menos estruturada, quando comparada ao algodão. Muitos defendem a substituição de uma fibra pela outra na indústria têxtil. No denim, prevalece a alternativa do blend. Combinação do cânhamo com o algodão orgânico, com liocel ou mesmo fios de poliéster reciclado.
Pelo menos uns dez fabricantes internacionais de denim lançaram produtos na linha hemp este ano. A lista inclui AGI Denim, Calik, Cone, Naveena e Orta. O avanço não é maior porque ainda são poucos os países que cultivam a planta. E eles ficam longe das fábricas responsáveis por converter a planta em fibra. Por sua vez, essas enviam os insumos para as fábricas de denim e sarja que estão geograficamente distantes.
A americana Cone é um bom exemplo. Compra cânhamo da França para fazer a linha Sweet Leaf e produz o tecido no México. O processo mantém-se complexo mesmo com a reforma da legislação agrícola Farm Bill, aprovada em dezembro de 2018. A reforma legalizou plantar o cânhamo industrial nos Estados Unidos.
Segundo os especialistas, para incorporar ao denim, a fibra do cânhamo deve ser processada como o algodão. Desse modo, seria fiada nas mesmas máquinas já em operação. Fora do Brasil, um dos objetivos para esses investimentos visaria reduzir a dependência ao algodão da indústria de jeans.
CÂNHAMO COLHE APELO SUSTENTÁVEL
Segundo especialistas, é uma fibra natural, de poucos cuidados no cultivo, que dispensa irrigação e uso de fertilizante sintético.
O cânhamo é uma fibra natural milenar com inúmeras aplicações, que não apenas na área têxtil. Serve para as indústrias de papel, comida, medicamentos e até na de veículos, para produção de carroceria de automóveis. A fibra é semelhante à de algodão, porém mais densa, e portanto também mais resistente. Contudo, o cânhamo aproveita o apelo sustentável pela forma de cultivo.
Ao contrário do algodão, requer pouca ou nenhuma irrigação. Isso já acontece com o algodão brasileiro. Quase toda a safra no país tem regime de sequeiro, ou seja, não usa sistema artificial de irrigação. A plantação é molhada com água das chuvas, diferentemente da atividade em outros polos produtores.
O cânhamo dispensa muitos cuidados. Cresce quase com uma erva daninha. Com a vantagem de repor os nutrientes vitais do solo e evitar a erosão de terrenos.
De acordo com a consultoria de design Three By One Europe, o cânhamo no jeans vai além do tecido. Pode ser a base para botões de bioplástico e etiquetas.
Leia também: O que diz a legislação Brasileira. O GBLjeans mostra o quadro jurídico do cânhamo no Brasil, de acordo com Regina Cirino Ferreira, coordenadora do curso de pós-graduação em Fashion Law, da Faculdade Santa Marcelina.