Obras serão conduzidas por joint venture com o governo do estado, para captar e tratar efluentes do distrito industrial de Pacajus com fins de reúso
A Vicunha Têxtil vai construir duto artificial que ligará o distrito industrial de Pacajus a uma estação de tratamento de água. O canal fechado terá cerca de 20 quilômetros de extensão. E será construído por uma SPE (Sociedade de Propósito Específico) em parceria público-privada com o governo do Ceará. Depois de três anos de negociação, a expectativa é o governador assinar a autorização do projeto até o final desta semana, prevê Marcel Imaizumi, diretor executivo de operações, supply chain e novos negócios da empresa.
Da parte da Vicunha, a previsão é de investimento em torno de R$ 20 milhões. A contrapartida do estado através da Cagece (Companhia de Água e Esgoto do Ceará) ainda não foi definida. O canal fará a captação dos efluentes industriais descartados pelas fábricas do distrito, incluindo a da Vicunha que produz denim. O diretor explica que o canal terá um ponto de diluição dos efluentes com a chamada água bruta. E chegará a uma enorme estação de tratamento de água (ETA). Em nota ele declara: “Com essa iniciativa, conseguimos oferecer não só à Vicunha, mas também a outras empresas da região, a possibilidade de reutilização integral do efluente industrial, o que reduzirá drasticamente o volume de água consumido no estado”.
META DE UM ANO
A intenção é tratar os efluentes de modo a obter água de reúso, que voltará para abastecer as fábricas de Pacajus. Segundo Helder dos Santos Cortez, diretor de unidades de negócios do interior da Cagece, a ETA já está em construção. “O que faltava era o canal de comunicação” explica ele. A previsão é o canal ficar pronto dentro de um ano, em meados de 2020.
Marcel Imaizumi, da Vicunha, conta que a ideia veio da experiência da Vicunha na Argentina. Ali, na província de San Juan, onde fica a fábrica, o governo construiu um canal aberto para captação de efluentes industriais.
Em Pacajus a Vicunha compra 110 mil metros cúbicos de água por mês. “Com a água de reúso desse projeto, nossa meta é reduzir a compra de água em 60%”, afirma Imaizumi.
INICIATIVAS AMBIENTAIS DA VICUNHA
No Brasil, a Vicunha tem plantas industriais no nordeste: em Maracanu e Pacajus, no Ceará; e em Natal, no Rio Grande do Norte. No exterior, conta com fábricas na Argentina e no Equador. De acordo com inventário da empresa as práticas de economia de água envolvem ainda uma série de práticas:
- captação e aproveitamento de 140 milhões de litros de água da chuva nas unidades do nordeste.
- 2,1 milhões de litros de água poupados por mês com a reutilização do efluente doméstico tratado.
- 3,7 mil litros de água recuperados a cada mês na otimização dos processos de lavagem dos filtros das ETAs.
- A tecnologia de osmose reversa é utilizada na produção de água para as caldeiras, reduzindo o desperdício deste recurso em 1,5 milhão de litros por mês.
- 6,3 milhões de litros de água reutilizados por mês no processo de recuperação de soda cáustica voltado para a preparação dos brins.
- “A Vicunha é a única empresa têxtil do mundo a conseguir recuperar soda cáustica no processo de fabricação do índigo. Todo mês, 30 toneladas de soda deixam de ser enviadas para a estação de tratamento de efluente da empresa e 600 mil litros de água são recuperados”, afirma o balanço da empresa.
Outras medidas envolvem a geração de 7 mil toneladas de reciclagem interna com resíduos têxteis do processo na forma de fio. A empresa também substituiu combustíveis fósseis por biomassa, como a casca da castanha de caju usada como combustível para geração de vapor. Em outra iniciativa economizou 11 mil MWh de energia elétrica ao trocar 23 mil lâmpadas fluorescentes por LED em áreas externas e internas.
GOVERNO DO CEARÁ VAI CAPTAR ÁGUA DAS DUNAS
Cortez, da Cagece, enfatizou que mesmo enfrentando oito anos de seca, o Ceará não deixou de fornecer água para as indústrias, ou para a população. Ele explica que como o estado não tem rios, se investiu na interligação de mananciais. E que o novo projeto é captar água de dunas, como já faz o Rio Grande do Norte. O sistema será empregado para abastecer o complexo industrial e portuário de Pecém. As dunas funcionam como reservatórios de água doce para recarga dos aquíferos.
*Correção: A Vicunha explica que rio artificial não é o termo mais adequado para essa construção. O termo correto é duto artificial. O texto da reportagem já contempla a alteração.