Tecnologia assegura confiabilidade das informações retidas, criptografadas e que não podem ser alteradas depois de registradas.
O Brasil conta hoje com duas iniciativas de rastreabilidade por blockchain que buscam ganhar propulsão. De modo geral, o assunto é de vanguarda no mundo, mais ainda para a cadeia de moda brasileira. Mais ambiciosa, a plataforma Rastra está reformulando o projeto lançado no ano passado. Pretende rastrear a longa e complexa cadeia da moda produzida no país até o varejo. Já o Instituto Alinha concentra os esforços no elo que envolve a relação de marcas com oficinas de costura, usando a tecnologia para levar as informações até o consumidor.
Criada no final do ano passado, a plataforma Rastra começou negociando com grandes redes varejistas para rastrear as cadeias ligadas a esse elo. Previa usar tecnologia de ponta como câmeras inteligentes para monitorar processos industriais, entre outros recursos. Mas a pandemia de covid-19 paralisou o mercado e os contratos não foram adiante. “O varejo está sofrendo. Como vai investir em rastreabilidade se lá na ponta não está vendendo”, reconhece Vanessa Spiess, estilista idealizadora do projeto desenvolvido junto com o sócio Ricardo Oliveira, da área de tecnologia.
Com a parada inesperada, eles reviram as bases do projeto. Até o final de julho, Vanessa conta que pretende lançar uma plataforma ampla, aberta e gratuita rastreada por blockchain. O modelo anterior previa contratos anuais, de valor alto, em que os maiores pagavam pelos pequenos. Incubados como startup no programa da Oracle, uma das maiores empresas de software do mundo e proprietária da tecnologia blockchain empregada, os sócios da Rastra agora querem abrir a plataforma para todos. Do campo ao varejo, passando por fornecedores de matéria-prima a prestadores de serviços. “Pretendo colocar o máximo que conseguirmos. Tem que fazer a roda girar”, afirma Vanessa.
CONTORNAR AS LACUNAS
Ela reconhece que rastrear a cadeia brasileira não é tarefa fácil. Muito atomizada, deixa nas sombras vários elos. Muitos pelo porte e alguns porque não interessa serem vistos. O corte começa pela formalidade. O critério para participar é ter CNPJ. A empresa também deve saber que cada operação gera um registro permanente, com emissão de nota fiscal envolvendo a movimentação das mercadorias, quantidades e valores.
A mesma lógica de compliance rege o sistema do Instituto Alinha que usa o blockchain como ferramenta de um projeto que visa melhorar as condições de vida de quem presta serviços de costura. Conecta oficinas que passaram por assessoria para se adequarem com marcas que estão dispostas a pagar preços justos por peça encomendada.
O QUE É BLOCKCHAIN
Nascida associada ao surgimento dos bitcoins (criptomoedas), a tecnologia blockchain evoluiu para acomodar outras aplicações. Os especialistas perceberam que com ela poderiam criar sistemas de rastreabilidade eficientes de cadeias de produtos, por exemplo. Uma das primeiras aplicações comerciais tem registro na China para mapear a cadeia da laranja, lembra Vanessa, que se debruçou sobre o case.
Ela explica que a Rastra usa o blockchain privado, desenvolvido em ambiente controlado e disponível apenas para partes autorizadas. Também o Instituto Alinha usa o modelo privado. Dessa forma, é possível saber quais são as empresas que participam e só entra na cadeia aquelas autorizadas pelo administrador do sistema. No blockchain público todos os participantes podem ler e enviar transações.
No caso do privado, cada informação sensível como a quantidade de peças encomendada e para qual parceiro é gerado uma hash, uma espécie de senha criptografada, a qual só terão acesso os que estão envolvidos diretamente naquele processo, assegurando privacidade.
COMO A RASTRA PRETENDE FUNCIONAR
Na nova fase da Rastra, as empresas farão um cadastro inicial com uma série de telas para preencher. Esses dados serão cruzados para permitir a interação. Uma empresa grande pode chamar, por exemplo, os seus fornecedores para participar. Algumas comprovações são exigidas, sobretudo na parte de certificações. Não basta declarar ter determinado certificado. É preciso anexar os documentos que comprovem a acreditação, observa Vanessa. Ela afirma que esses cuidados são necessários.
“O blockchain carrega a informação para o resto da vida. Mas o que tem de confiabilidade naquela informação é que é a questão. Conseguimos reter com tecnologia”, diz.
Pela plataforma, uma marca entra com um pedido para produção de uma peça-piloto, incluindo ficha técnica entre outras informações. Ali, a empresa seleciona o fornecedor com o qual quer trabalhar ou o perfil de fornecedor que interessa. O prestador de serviço recebe uma notificação pelo celular e por ali mesmo responde se tem interesse.
Caso a peça vá para a produção todos os envolvidos são notificados, do corte à lavanderia, no caso do jeans, e também a empresa de logística que vai levar a produção de um lado para o outro. “Quando as empresas são notificadas, cada saída tem uma nota fiscal, então eu já estou rastreando”, explica Vanessa. Pelo sistema, dá para saber onde a peça está, o que foi feito e se tudo está correndo dentro do prazo.
COMO FUNCIONA O INSTITUTO ALINHA
Hoje o trabalho do Instituto Alinha está concentrado na região metropolitana de São Paulo. É na capital que se enfrentam sérios problemas trabalhistas envolvendo imigrantes latinos e oficinas de costura irregulares. O papel do Alinha tem sido o de trabalhar com as oficinas para que atinjam os requisitos mínimos de legislação, segurança, qualidade do trabalho e de vida. Para isso, são feitas visitas técnicas verificando o que precisa ser adequado, onde e como investir.
A maioria é de empresas familiares com duas a três pessoas, que trabalham onde moram, conta Dari Santos, idealizadora do projeto. O papel do Alinha também é ajudar a reprecificar, ensinando fazer cálculo. Muitas cobram pouco para ganhar em volume, sem perceber que podem tirar o mesmo faturamento, ou mais, trabalhando menos horas e melhor.
Durante seis meses, a oficina é acompanhada. Quando atinge os requisitos, é publicada de forma gratuita no sistema para ser contratada. Atualmente, 30 oficinas participam. Nenhuma paga pela assessoria recebida. Já as marcas pagam para participar. São duas alternativas de planos, um semestral (R$420) e outro anual (R$600).
Pela plataforma, as marcas indicam quantas peças querem produzir, quanto pagam por cada uma e o prazo. A oficina recebe uma notificação com a descrição da demanda e responde se aceita ou não. Ao final, o sistema gera um descritivo do pedido inicial e a oficina confirma se confere a quantidade feita, o valor e o prazo. O blockchain entra no processo para registrar cada transação, cujas informações não podem ser alteradas depois de inseridas no sistema. Ao final, gera um código de seis dígitos mostrando a foto da peça, a oficina que fez e quanto recebeu por ela, entre outros dados. Esse código pode ser informado ao consumidor, para que ele faça uma consulta na plataforma.
ASSESSORIA À DISTÂNCIA
Devido à pandemia, Dari estuda como adaptar a metodologia que envolve visitas técnicas presenciais. Está avaliando como poderia validar acompanhamentos à distância. Se conseguir, a metodologia poderia ser ampliada para outras regiões do país.
Também está nos planos da Rastra incluir um botão de Certificação Online na plataforma. Ao ser acionado, a empresa a ser auditada receberia no celular um link de acesso remoto e passaria a filmar a produção daquele cliente, prevê Vanessa.