Ao divulgar balanço do trimestre, empresa diz que vai pular uma coleção e que está investindo para ter seu próprio marketplace.
Mesmo registrando prejuízo no trimestre, a Riachuelo fez uma avaliação positiva do desempenho da empresa entre janeiro e março. Em teleconferência de resultados com analistas de mercado, a varejista reforçou o entusiasmo com o universo digital, que foi a única opção comercial para o comércio obrigado a fechar as portas em decorrência da pandemia de covid-19 a partir da terceira semana de março. Ao mesmo tempo, reconheceu que os estoques se mantêm acima do normal para a época. E, por isso, vai pular a coleção do terceiro trimestre.
“Nossa próxima coleção será a de final de ano e será produzida majoritariamente no Brasil pela Guararapes”, informou Oswaldo Nunes, CEO da Riachuelo, aos analistas. Avalia que ter a produção próxima representa uma vantagem estratégica porque dá velocidade. “Mais perto, à luz da demanda podemos decidir sobre compra e produção”, acrescentou o executivo. Como a próxima coleção será a de verão, a tendência é ter peças leves, sobretudo malha.
Por entender também que peças de inverno têm baixo conteúdo de moda, Nunes considera que algumas podem ser guardadas e vendidas em 2021. A Riachuelo espera que as promoções ficarão acima do normal quando o comércio em geral for reaberto no país. Por enquanto, até sexta-feira, 22 de maio, apenas 60 lojas da rede estavam funcionando. E outras três tinham autorização para retomar as atividades, contou Nunes.
MARKETPLACE PRÓPRIO
No primeiro trimestre de 2020, a Riachuelo investiu R$ 85,9 milhões, quase 40% a mais que em igual período de 2019. Além do reforço, o capex trimestral assume um novo perfil na composição dos investimentos da empresa. Do total, R$ 49,6 milhões foram destinados a sistemas e equipamentos de TI, tanto para a rede de lojas quanto para a financeira do grupo, a Midway. Até então, a abertura de lojas costumava absorver a maior parte dos recursos.
Nunes contou que os avanços da companhia pelo mundo digital levaram à direção de operar um marketplace próprio. Acompanharia o alinhamento do público da Riachuelo, agregando novas categorias de produtos e serviços. Em webinar da Abit, Flávio Rocha, presidente do Conselho de Administração do Grupo Guararapes, já antecipara que essa plataforma poderia reunir áreas, como viagem e gastronomia.
Segundo Nunes, a empresa está construindo um modelo proprietário de plataforma marketplace, que espera concluir até o final do ano.
TRIMESTRE FECHA COM PREJUÍZO
De lucro líquido próximo a R$ 30 milhões, no primeiro trimestre de 2019, a Riachuelo passou para prejuízo líquido de R$ 47,51 milhões em 2020. A perda é atribuída à pandemia da covid-19 que levou ao fechamento do comércio físico. Quando a quarentena foi decretada, a Riachuelo contava com 323 lojas em operação. Duas delas inauguradas em março. Uma no início do mês em Três Lagoas (MS) e outra em 17 de março em Lauro de Freitas (BA).
O e-commerce sustentou as vendas em quase dois meses de varejo físico fechado. A receita líquida do trimestre foi de R$1,62 bilhão. Representou 0,1% a mais que o obtido entre janeiro e março de 2019. O ticket médio no período avançou 8,5% para R$ 134,3. A Guararapes produziu 8,1 milhões de peças no primeiro trimestre, 4% a menos que em igual trimestre de 2019. E faturou R$ 293,99 milhões para a Riachuelo.
Durante a teleconferência, a companhia explicou que os resultados de algumas iniciativas surpreenderam positivamente. Uma delas foi transformar a carteira de recebíveis em caixa. Prevendo dificuldade para os clientes pagarem as faturas, já que as lojas estavam fechadas, a Riachuelo fez parceria com correspondentes bancários como lojas do Carrefour e do Pão de Açúcar, além de farmácias. Como esse comércio continuou a operar, os clientes passaram a ter alternativa para quitar as contas. Se em março a varejista sofreu porque as pessoas não sabiam como fazer, a partir de abril o cenário mudou. Ao custo de campanhas educativas, mostrando a alternativa, as faturas foram pagas.
DESAFIOS DA LOGÍSTICA
Embora não abra dados financeiros sobre a contribuição das vendas online na receita, Nunes conta que a partir de março quintuplicou o número de pedidos. “E com essa escalada, o desafio foi e, em grande medida tem sido, ajustar toda a operação de logística para rapidamente atender a esta demanda”, disse o executivo na teleconferência de resultado. Os pedidos não vieram apenas do site.
Novos canais foram ativados, como vendas pelo Whatsapp criado para as lojas. Outro foi o lançamento do app Riachuelo Lovers, operado por funcionários da empresa. Quem quis passou a vender o catálogo da empresa a seus próprios contatos. O resultado foi tão bom que a empresa estuda manter esse canal de venda para o qual discute um modelo de governança que evite conflitos de interesse.
OUTRAS MEDIDAS
Para reforçar o caixa durante o período de pandemia, a companhia contratou linhas de crédito em bancos. Inicialmente captou R$ 200 milhões ainda no primeiro trimestre. Outros R$ 800 milhões foram contratados em abril, totalizando R$1 bilhão.
Fechadas em 16 de março, as fábricas da Guararapes permaneciam sem atividade até 22 de maio. Como vinha produzindo a coleção do inverno, a companhia também suspendeu os pedidos em fornecedores contratados. “A operação de antecipação de duplicatas foi mantida e continua em operação, oferecendo antecipação de recebíveis aos nossos fornecedores parceiros”, informa a empresa.
Logo no início da quarentena, o grupo deu férias coletivas para os funcionários das fábricas, lojas e de parte dos CDs. Depois aderiu à MP 936 suspendendo o contrato de trabalho dos colaboradores de lojas e fábricas. Também aplicou redução de jornada e remuneração para a maior parte dos colaboradores da matriz, incluindo a diretoria.
Para entrega de mercadorias compradas online, a Riachuelo aderiu ao drive-thru, modalidade de entrega disponível em 156 lojas. O projeto Ship from Store foi concluído e começará a funcionar a partir de junho. “A totalidade dos estoques da companhia (CDs + 100% das lojas) estará disponível para as vendas online”, garantiu a empresa em relatório que acompanha o balanço trimestral.