Fashion Revolution realiza primeiro seminário abordando oportunidades de mercado no país.

O 1º Seminário de Cânhamo Têxtil abordando oportunidades econômicas e regenerativas no Brasil foi promovido pelo Fashion Revolution local. “Só substituir algodão com cânhamo não resolve o processo de sustentabilidade. Não basta inserir uma nova fibra no mesmo
modelo industrial, no mesmo modelo de produção”, argumentou Sérgio Rocha, diretor executivo e fundador da Adwa Cannabis, uma startup de desenvolvimento de pesquisas e tecnologias orientadas para a cadeia produtiva da cannabis.Na visão dele, o cultivo da planta no país, ainda proibido, não implica a substituição de outras culturas. “Cânhamo não é panaceia para resolver a sustentabilidade do agronegócio”, afirma. Rocha enxerga o cultivo da cannabis como opção sustentável se acompanhada de novos arranjos de produção agrícola, como consórcio entre pequenos agricultores.
A simples substituição levaria apenas o cânhamo para o modelo de monocultura em grandes extensões de terras, como hoje vigora com algodão, milho e soja.
Eduarda Bastian, presidente do comitê têxtil da ANC (Associação Nacional do Cânhamo), destacou em sua apresentação que, hoje, são comercializados dois tipos de fibras têxtil de cânhamo. Mais nobre, a fibra longa é escassa em decorrência do processo rústico, de maquinário escasso.
As fibras curtas são as mais empregadas e passam por processo de cotonização que provocam impactos ambientais não muito diferentes dos causados por outras fibras têxteis. Como opção sustentável, deveria haver mais investimento em novas tecnologias de processos e maquinário para produção das fibras, disse.
SITUAÇÃO LEGAL NEBULOSA
“Importar tecido e roupas de cânhamo não tem problema. Começa a ficar nebuloso no plano das fibras, no estágio de transição”, comentou Rafael Acuri, diretor executivo da ANC. Para ele, a insegurança jurídica desencoraja as empresas a investir mais na fibra no Brasil, embora a entidade registre aumento de consultas por parte da indústria têxtil.
A questão está longe do desfecho. Junto com a Universidade Federal de Viçosa, a Adwa iniciou o primeiro programa brasileiro de melhoramento genético da planta cannabis. O objetivo do trabalho passa por identificar as melhores variedades da planta para cada tipo de solo e clima do Brasil. Mas a pesquisa só progrIde porque o projeto obteve autorização judicial.
Até o uso medicinal da cannabis sofre resistência, como ressaltou o deputado federal Tiago Mitraud, que participa da comissão que propôs projeto de lei que libera o cultivo no país para uso na produção de medicamentos. “O projeto enfrenta resistência ideológica sobretudo das bancadas religiosas”, disse o deputado. O projeto está parado na Câmara.
POTENCIAL DE MERCADO
Maria Riscala, CEO e co-fundadora da consultoria Kaya Mind, estima que a partir da definição de um marco regulatório liberando o cultivo da cannabis no Brasil, em quatro anos seria possível alcançar 15,1 mil hectares de plantação. Apenas com essa fração, o mercado poderia movimentar R$4,9 bilhões só da fazenda para a indústria, sem contar a produção de roupas, apontou Maria para enfatizar o potencial do segmento.
De acordo com a empresária, um hectare de fibra de cânhamo têxtil equivaleria a R$12 mil, enquanto um hectare de CDB (cannabis para uso medicinal e cosmético) corresponderia a R$170 mil. A diferença de valores tem a ver com o modelo de plantação exigido para cada aplicação.
Para uso têxtil, as mudas são plantadas bem próximas umas das outras, crescendo para cima. Já para CDB (sigla para canabidiol) as mudas devem ficar longe o bastante para que todas tomem sol por inteiro, brotando flores, que são a base dos óleos.
Entre produtos têxteis, Poliana Rodrigues, da Blum, anunciou no seminário que em fevereiro de 2022 lança modelo de calcinha absorvente feita de cânhamo, destacando as propriedades antibacterianas e antialérgicas da fibra.
No jeans, no final de outubro, Vicunha e Capricórnio lançaram jeans de cânhamo, em combinação com algodão. Desde 2020, o GBLjeans alerta que o cânhamo no denim agita o radar da moda.