Devido ao coronavírus, um cenário desenhado pela companhia é enfrentar três meses de receita zero proveniente do varejo físico.
Confrontada com o avanço do coronavírus no Brasil, a Marisa Lojas traçou alguns cenários de crise desde o início de março. Para investidores, a companhia disse trabalhar com a expectativa de enfrentar três meses de receita zero, caso todas as lojas fiquem fechadas nesse período. O fluxo de caixa seria abastecido pela carteira de recebíveis, hoje calculada em R$ 800 milhões, e pelas vendas online. Até a sexta-feira, 20 de março, a Marisa fechara 175 lojas por imposição legal e mantinha a outra parte em operação. Dois dias depois, no domingo, 22 de março, contudo, soltou comunicado informando a suspensão de funcionamento de todas as lojas da rede, “por tempo indeterminado”.
A empresa espera “um cenário de bastante estresse nas vendas para o segundo trimestre”. Por isso, adotou iniciativas de reforço de caixa para os próximos meses e controle no equilíbrio de estoques. “Com o coronavírus e parte das lojas fechadas (na sexta) estamos trabalhando com nossos fornecedores no sentido de prolongar as carteiras, com cuidado, porque não queremos resolver nosso lado e criar um problema para eles neste momento. Precisamos preservar o nível de estoque e garantir a retomada quando a economia voltar”, disse aos investidores, Marcelo Pimentel, presidente da Marisa.
E-COMMERCE MANTIDO
A companhia manteve o funcionamento do e-commerce. Na teleconferência com o mercado, Pimentel comentou que a empresa já observara queda na demanda pela opção clique e retire por causa do coronavírus, com o consumidor preferindo o modelo tradicional de entrega em casa. Na avaliação dele, o Brasil deverá viver experiência semelhante à da Europa com o comércio eletrônico em tempo de coronavírus. Segundo o executivo, as vendas online caíram na primeira semana de isolamento até porque as pessoas estavam acomodando suas rotinas à nova situação. Mas que a partir da segunda semana houve a retomada do consumo online.
Para manter essa operação, a Marisa promoveu mudanças no funcionamento do CD de Santa Catarina. Implantou mais turnos de trabalho, de modo a ter menos pessoas em cada um. “Isso garante o funcionamento e prepara para a retomada da economia”, afirmou Pimentel.
FECHA O ANO COM PREJUÍZO
Depois de reverter as perdas em 2018, a Marisa voltou em 2019 a operar com prejuízo. Acumulou no ano prejuízo líquido de R$ 112,36 milhões, frente aos R$ 28,36 milhões de lucro obtido em 2018. A receita líquida cresceu 4,5% em 2019 para R$ 2,89 bilhões. Ainda que a receita líquida tenha aumentado em todos os trimestres, no quarto subiu 12,3%, contribuindo com R$ 899,77 milhões. Foi também o único trimestre a anotar lucro líquido, com R$ 32,77 milhões.
Entre outubro e dezembro, a Marisa fechou uma unidade mantendo a rede com 354 operações físicas. Assim, encerrou 2019 com 17 menos lojas do que tinha em 2018.
O e-commerce foi um fator de impulsionamento de receita, diz a empresa. A principal contribuição em 2019 veio do projeto clique e retire que trouxe para a Marisa 30% de clientes novos entre os que fizeram compras online. O presidente aponta dois grandes motivos. Ao permitir retirar o produto em loja, a Marisa passou a atender uma população que não comprava pela internet por morar em regiões consideradas perigosas para entrega. Outra parte é daqueles que passam o dia fora sem ter alguém para receber a encomenda. Ele entende que ajudou o fato de a rede ter grande número de lojas de rua em locais de fácil acesso.
Retirar em loja o produto comprado pela internet também contribuiu para aumentar o fluxo de clientes, que muitas vezes aproveitavam para comprar mais uma mercadoria no ponto de venda. A Marisa expandiu rapidamente a opção de retirar em loja. Começou a experiência em dez lojas e fechou 2019 com 288. Antes do advento do coronavírus, a previsão era alcançar 300 pontos até abril. Também estava nos planos implementar o modelo ‘ship from store’. Nesse formato, usa o estoque das lojas para envio de produtos, reduzindo o prazo de entrega e eliminando o custo de frete.
Havia boa expectativa com a criação de lojas oficiais da Marisa em marketplaces. Começou no ano passado com o MercadoLivre e no início de 2020 fez acordo com Netshoes, Zattini e B2W.