Para além da sustentabilidade, setor discute inovações como uso de novos materiais, mudanças de processos, tecnologia de ponta.

“O jeans do amanhã é um grande ponto de interrogação”. Com essa frase dita ao final de sua palestra durante o evento de abertura da Denim City São Paulo, o estilista italiano Adriano Goldschmied resumiu o sentimento que atravessou
os quatro dias do evento. Incensado como ‘the godfather of denim’, AG colocou em cheque o futuro do algodão tradicional para o jeans que, na opinião dele, deveria ser substituído por fibras tidas como mais sustentáveis, como o cânhamo industrial.“O algodão precisa de muita terra, consome muita água, energia, produtos químicos, além de ser uma lavoura degenerativa para o solo. O futuro da humanidade depende de que a terra seja usada para produção de alimentos”, opina. Por razões diferentes, ele também avalia que o jeans elastizado tal como conhecemos terá que se reinventar. “Todos os filamentos do poliéster, novos ou reciclados, ficam no solo por 500 anos”, justifica.
Além do cânhamo industrial e das fibras celulósicas derivadas de florestas certificadas, AG defende o uso do algodão orgânico na composição do denim.
ECONOMIA CIRCULAR
Circularidade no jeans foi outro tema recorrente nas rodas de conversa sobre inovação e sustentabilidade do evento. Goldschmied defende a economia circular como uma via de futuro do jeans. “Circularidade no jeans hoje é impossível. Além de algodão, tem poliéster, tem elastano, tem que tirar o metal. Circularidade é um desafio tecnológico a ser vencido pela cadeia do jeans”, argumentou Marcel Imaizumi, diretor de operações da Vicunha, em sua participação na roda sobre sustentabilidade.
MEU SONHO PARA O JEANS
Mediadora das três rodadas de conversa do evento – denim do futuro, sustentabilidade e inovação, a jornalista Lílian Pacce repetiu a pergunta para os representantes do setor de qual seria o sonho deles para o jeans. O GBLjeans fez um apanhado das respostas para o sonho e para o futuro do setor.
Vicunha | Marcel Imaizumi, diretor de operações.
“Um sonho recente que assumi como meu é que no futuro os tecidos sejam biodegradáveis”. Na avaliação dele, em 50 anos, o mundo vai produzir menos denim, mas, melhor. Hoje, diz, a indústria global tem capacidade instalada para produzir 6,7 bilhões de metros de denim e o mundo consome 5 bilhões de metros.
Sobre o futuro de curto prazo, ele menciona o projeto da Vicunha para o tingimento do brim. “Teremos novidades em meados do ano que vem. É uma tecnologia disruptiva que vai alterar a parte de reativos, vai revolucionar o mercado do brim, com resultado assombroso. Não gera efluente e não carrega químicos na solução”, antecipou, sem dar mais detalhes.
Santista | Newton Coelho, diretor comercial.
Para ele, o sonho é ver toda a cadeia integrada desde o campo e rastreada até o consumidor. A pandemia, entende, “trouxe senso de interdependência, de pensar em rede e a importância do bem-estar”. Acredita que as tecelagens assumirão novos papéis e responsabilidades.
Na visão do diretor, a indústria 4.0 não é o futuro para o setor de jeans. “Já é uma realidade”, assegura. Conta que a Santista já opera com teares novos que se auto calibram, incorporam bancos de dados que são capazes de prevenir eventuais erros ou mesmo ajudar a solucioná-los. Dispõem de integração máquina-máquina e recursos de integração homem-máquina, como a realidade aumentada. “O papel da tecelagem será ajudar as confecções a ter acesso a essas tecnologias”, considera.
Capricórnio | João Bordignon, diretor de marketing.
Ele pondera que o denim do futuro passa pelo processo de personalização da oferta para o consumidor. Também que o jeans terá de embarcar tecnologias wearable, como dispositivos que gerem benefícios à saúde.
No tempo atual, o desafio das empresas do setor é comunicar, mais e melhor, as metas e ações de sustentabilidade. Entende que as empresas terão que responder ao consumidor “o que, como e em quanto tempo”.
DCSP | Renato Kherlakian, designer brasileiro.
Jeans que veste bem, com bom desbote, que valoriza a silhueta. “Esse é um sonho que não pode acabar”.
GB Tecnologia | Marco Britto, diretor-presidente.
Sonho para ele é uma lavanderia que não use água, nem produto químico; sem caldeira e sem descarte de efluente. Padrão que considera ser possível alcançar em quatro a cinco anos, no Brasil. Com esse perfil, as lavanderias não precisariam de licença ambiental. “Poderia abrir lavanderia dentro de um shopping”, alegou.
Pelas profundas mudanças que afetaram o perfil das lavanderias na última década, Britto diz que está tentando encontrar uma nova denominação, porque o de lavanderia não cabe mais.
INOVAÇÃO E SUSTENTABILIDADE
Canatiba | Fábio Covolan, diretor de marketing.
“Inovação anda lado a lado com sustentabilidade”, afirmou. E acrescentou que dispor de processos de produção sustentáveis representa daqui para frente condição para se manter no jogo comercial.
Covolan | Thaísa Peralta, denim head.
Ela anuncia que entre as metas para cinco anos da empresa está buscar novas certificações, como GRS, GOTS e ISO 50001.
Jolitex | Michel David, diretor-presidente.
“Novas fibras como liocel e bambu são inovações bacanas para o denim, mas como satélites. Não acredito que assumam papel de protagonistas. O rei absoluto continuará sendo o algodão”.
Nicoletti | Antonio Henrique Martins, diretor comercial.
“É tempo de maturação”, ressaltou. E acrescentou que a empresa vai buscar os selos oferecidos “na medida do possível”.
Zune Brands | José Eduardo Nahas Filho, diretor.
“O conforto não precisa vir necessariamente do elastano”, destacou. Na opinião dele, o jeans de alto power ”teve função e é muito importante. Mas precisamos olhar para outras iniciativas de fibras naturais”, concluiu.