Evento bienal em Blumenau destacou os desafios da reciclagem têxtil, startups, materiais sustentáveis e gestão de resíduos

Com público estimado em 7 mil profissionais, o Febratex Summit 2025 reforçou a vocação para debater a moda de produção sustentável, inovação e a complexa realidade da reciclagem têxtil. Promovido nos anos ímpares pelo Febratex Group, o evento realizou palestras longas e curtas em quatro palcos, abertos aos visitantes por estarem integrados à área de exposição de produtos, serviços e soluções para o mercado têxtil e de vestuário.
Os desafios técnicos devidos à complexidade da reciclagem têxtil foram alertas recorrentes nas palestras e apresentações de especialistas. “Um processo de reciclagem pode ser altamente poluente”, resumiu Marcelo Lobo, country manager da ZDHC para o Brasil, em debate no Febratex Summit 2025. Ele explica que em um processo de reciclagem química pode levar a uma reação com os produtos químicos empregados na produção do tecido, por exemplo, e gerar efluente mais perigoso que o do tecido original.
Em outro exemplo, cita que poliéster à base de milho vai gerar microplásticos, da mesma forma que o poliéster de base fóssil. Lobo ponderou que questões dessa natureza não podem ser usadas como empecilho para investimentos, mas que são exemplos dos complexos desafios que a cadeia têxtil e do vestuário enfrenta.
Carlos Silva, sócio da consultoria em sustentabilidade Impulgest, ressaltou que não há na indústria têxtil uso massivo de ferramentas que geram métricas para consumo de água, energia elétrica, rastreabilidade, entre outras dados de gestão. “Sabemos o que queremos, mas não sabemos o que temos”, concluiu.
Também Siva Pariti, chief impact officer da BluWin, completou no debate que a indústria têxtil precisa operar a partir de indicadores capazes de medir todo o ciclo da cadeia, desde a fonte da fibra até o consumidor.
De modo geral, e como é comum no Brasil, faltam dados sobre reciclagem têxtil.
DADOS ANTIGOS
Nas apresentações, palestrantes diferentes mostraram informações antigas, cujas fontes originais ficaram perdidas pelo caminho da repetição. Em comum, avaliam que as soluções de reciclagem têxtil pré-consumo avançaram no Brasil, até porque a maioria das empresas industriais sabe a composição dos tecidos com os quais trabalham.
Também as confecções de roupas sabem a composição dos tecidos que compraram. Assim, a separação fica mais fácil, comenta Amanda Hammond, fundadora da Selo Retece, que presta consultoria a micro e pequenas confecções para implantar modelos de triagem e segregação de resíduos para gerar receita. No Fashion Summit 2025, a Retece também destacou a operação da bolsa de sobras que administra ligando geradores de resíduos com compradores.
A complexidade maior permanece na reciclagem têxtil pós-consumo. São muitas as dificuldades. Da composição multimaterial dos tecidos, como a combinação de poliéster e elastano ou algodão e elastano, para mencionar as mais comuns. A aspectos técnicos desconhecidos do grande público, como a corrosão das fibras devido a sucessivas lavagens caseiras durante as quais muitas vezes se usa produtos de limpeza agressivos. Quando desfibradas essas roupas simplesmente viram pó sem condições de reciclagem, explicou em palestra o fundador e CEO da Cotton Move, José Guilherme Teixeira.
Em uma década, desde quando foi criada em 2014, a Cotton Move coletou 325 toneladas de resíduos têxteis coletadas. Junto com o parceiro industrial Souza e Cambos produziu 750 mil toneladas de peças de roupas, contendo até 50% de conteúdo reciclado.
A Cotton Move também opera a Plataforma Circular que mostra aos consumidores em torno de 500 pontos aonde podem depositar roupas e calçados usados e novos no Brasil.
Do corner de startups do evento, participou a Pegada Neutra, empresa que oferece créditos de reciclagem para embalagens, conectando empresas e operadores, contemplando práticas de logística reversa com selo ambiental.
ESCALA INDUSTRIAL
Em palestra no Febratex Summit 2025, a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e Vestuário) disse que considera expandir o já longo mapa da cadeia de produção no Brasil, para incluir a etapa de reciclagem.
Na parte de exposição, a catarinense Eurofios participou apresentando os fios têxtis reciclados e fornecendo fardos de 250 quilos cada um para compor a cenografia em volta da passarela e e resíduos têxteis fixados em dois paredões ladeando o palco principal. Ao todo, a empresa recicla 13 mil toneladas de resíduos têxteis por ano.
São fios usados por clientes como a Renovatex, de Nova Odessa (SP), na linha de tecidos Ecotex. A tecelagem que produz 250 mil metros de tecidos por mês explica que moda masculina e moda infantil representam a maior parte das vendas.
Do Rio Grande do Sul, a Maxitex foi fundada em 1993 e desde o início buscou o desperdício zero, contou o fundador e CEO da empresa Romeu Baldissera, em palestra no Febratex Summit. Atualmente, a empresa opera com cinco linhas de negócios. Uma delas é a de fios especiais, que faz desenvolvimento sob demanda a partir de matéria reciclada. Também atua com as linhas de Eco Têxteis; EcoArt; soluções de limpeza; e Eco Solutions, que cria produtos a partir do descartes de uniformes profissionais, como mochilas.
DESFILE TÉCNICO
O desfile técnico realizado pelo Citeve, de Portugal, percorreu seis blocos temáticos, mostrando a moda sustentável possível. Começou pelo Eco-Design abordando o desenvolvimento modular para garantir durabilidade, capacidade de ser ajustado ao longo do tempo ou transformado mediante reestampagem, por exemplo.
No Bloco Fibras Naturais, o Citeve colocou na passarela modelos feitos de tecido com fibras de ananás combinadas a de bananeira; com fios de algodão revestidos de curtiça (material que torna o fio mais resistentente à fricção, gerando menos pilling, além de manter a leveza do algodão e propriedades de isolamento térmico) ou de urtiga.
A parte de Fibras Celulósicas apontou para tecidos produzidos a partir de liocel combinado a fibras de urtiga. Em Fibras Recicladas, a moda desfilada usa poliéster de garrafa PET, ou modal à base de plásticos retirados do oceano.
Para Bio-acabamento, o Citeve mostrou roupas feitas com tingimentos de corantes naturais, ou à base de resíduos agrícolas, algas e bactérias. Também destacou a necessidade de Transparência e Rastreabilidade das roupas para atender a exigência europeia do passaporte digital de produtos.
foto: divulgação