Modelo do grupo de pesquisa busca ampliar acesso de pequenos produtores ao mercado de carbono com validação pela USP

Parte do Núcleo de Apoio à Pesquisa e Inovação da USP, o Sustexmoda propõe um modelo simplificado de registro de crédito verde, usando cartórios. A proposta não cria um novo crédito de carbono, mas altera a forma de validação do processo. Atualmente, as empresas operam no chamado mercado voluntário, pelo qual podem gerar ou comprar créditos de carbono em operações que exigem validação por auditoria externa e registro em plataformas de certificadoras.
O Brasil instituiu por lei o mercado regulado de carbono pelo SBCE (Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões), cujas regras ainda não foram completamente definidas. Mas, o sistema está voltado a empresas que emitem acima de 25 mil toneladas de CO2e por ano. Pelo modelo defendido pelo Sustexmoda, o registro de crédito verde ficaria mais acessível para pequenas confecções e recicladores têxteis.
Ao registrar em cartório a doação de resíduos têxteis ao Instituto Sustexmoda e a correspondente transformação do material, o produtor receberia um selo verde, como outras certidões, de forma simples e direta. “Similar ao registro de um carro no Detran”, afirma Margo Isaac, vice-presidente do Instituto Sustexmoda e idealizadora do processo Line Flow. O selo verde receberia a chancela da USP.
Conforme Margo, a área jurídica do instituto trabalha para concluir o modelo regulatório que permita que a certificação da geração de crédito de carbono seja feita em cartório. Na prática, produtores doariam resíduos ao Instituto Sustexmoda, que emitirá um selo de destinação correta acompanhado de relatório fotográfico comprovando a transformação do material. O registro em cartório funcionaria como validação documental da operação, permitindo que o produtor tenha uma certidão apta à negociação do crédito de carbono.
PROCESSO LINE FLOW
Voltado à pesquisa em sustentabilidade têxtil e de moda, o Sustexmoda criou o próprio instituto no qual desenvolve iniciativas de reciclagem têxtil, usando maquinário convencional e baixo investimento. Entre os projetos, Margo Isaac desenvolveu uma técnica de reaproveitamento de resíduos têxteis baseada em patchwork industrial, que batizou de Line Flow. É a junção de muitas partes em linhas infinitas, usando materiais leves e pesados, para confecção de roupas, calçados, itens de decoração, entre outras aplicações.
O projeto começou em 2023 quando a Receita Federal do Brasil procurou a USP para um acordo de cooperação técnica. Com a intenção de dar destinação correta a lotes de roupas apreendidos, somando 20 mil toneladas. Pelo projeto Line Flow, o Instituto Sustexmoda reciclou 70 toneladas, que renderam 150 mil peças têxteis.
Não foi, entretanto, uma operação simples. Do instituto do sindicato dos químicos, o Sustexmoda conseguiu uma sala em prédio no centro de São Paulo para acomodar as 70 toneladas de roupas. Com outras entidades de atuação social, chegou a um grupo de afegãos que receberam visto humanitário para viver no Brasil e aprenderam a costurar. Para exemplificar o potencial da técnica de reciclagem têxtil que desenvolveu, Margo mostra uma cortina confeccionada para servir de divisória em centros de acolhimento de desabrigados.
Com 30 painéis unidos em fluxo contínuo de costura, a cortina pesa quase 5 quilos. Ao mesmo tempo, mostrou também uma peça de moda, como o quimono em exposição na FebraTêxtil 2026. “Você pode fazer por painéis, pode fazer isso por partes, por produto”, ressalta a professora.
Ela comenta que o instituto pode prestar consultoria para marcas e confecções interessadas em reciclar resíduos têxteis, para destino em ações de responsabilidade social ou mesmo para desenvolvimento de uma linha de produtos de origem sustentável desde o design.




