Em vez de estações, o mercado agora mapeia quem está na ‘Mesa de Comando’ das emoções para criar as próximas coleções

Por décadas, a moda organizou o consumidor por idade, gênero, renda e localização, mas a próxima fronteira das tendências da moda, assim como do jeans, é bem menos objetiva. Para 2028, as emoções, a identidade e a busca por bem-estar chegam ao centro das discussões sobre consumo, como apontaram as palestras de tendências apresentadas durante a semana de lançamentos das têxteis do jeans em São Paulo.
Contudo, para os estilistas, sobra o desafio de transformar em produto conceitos como acolhimento, nostalgia, controle, ansiedade ou desejo de expressão, sem escorregar no achismo.
A referência ao filme Divertida Mente ajuda a entender a lógica. Na animação, as Ilhas de Personalidade são construídas a partir das memórias e experiências que formam a identidade de Riley. Transportado para o varejo, o conceito sugere que uma mesma pessoa pode ter diferentes ‘ilhas’ comandando suas escolhas. E usaria o produto para reforçar, compensar ou expressar esses estados de espírito.
A questão para a indústria da moda é descobrir qual dessas ilhas está ativa no momento da compra.
ANO DELTA
Em palestra para a Canatiba Têxtil, a WGSN chama 2028 de Ano Delta. É uma referência que combina matemática, física e geografia. Na matemática e na física, o símbolo delta representa variação, diferença ou mudança entre dois estados. Na geografia, o delta é a região de transição em que um rio encontra o mar. A metáfora resume o cenário projetado pela consultoria que enxerga um mercado em grande transição.
Já para apresentar as tendências de moda do verão 2028 com Bia Aidar, a Canatiba preferiu falar dos Contornos do Vento. A analogia trata do movimento das dunas, que mudam de forma conforme a direção do vento. “Em um mercado em constante mudança, adaptar-se não significa mudar de direção, mas encontrar novas formas de seguir em frente”, afirma a empresa na apresentação.
CARTOGRAFIA EMOCIONAL DO JEANS
Para a Santista Têxtil, o ‘mar de emoções’ de 2028 também são dados. Provar que sentimentos não são abstrações, mas métricas comerciais, foi o ponto de partida do novo estudo Cartografia Emocional do Jeans: Corpo, Desejo, Gerações e os Novos Territórios da Escolha. A tecelagem realizou um laboratório acompanhando 13 pessoas de diferentes gerações, que vivem em estados diferentes do Brasil, durante uma semana inteira.
Conforme Sueli Pereira, consultora de tendências da empresa, o diário deles mostrou que as escolhas de look funcionam como espelho do humor e dos sentimentos.
MATRIZ DE PRODUTO
De acordo com Ana Paula Alves, estrategista global de denim da Be Desobedient, que fez palestra para a Vicunha Têxtil, o consumidor de 2028 assume dois perfis. Tem o Decision Maker, que não segue modismos, que pesquisa, compara, seleciona e constrói o próprio universo estético. Prioriza origem da matéria, qualidade, durabilidade e a narrativa por trás da peça. É capaz de cruzar dados de 50 sites para entender a procedência do que veste, observou Alves.
O System Player é o tipo de consumidor hiperconectado. Compartilha, comenta, valida o ecossistema emocional e faz o produto viralizar.
Para abastecer essas mentes, a especialista aponta para o que chama de Matriz T3 como bússola de desenvolvimento. Trace (Rastrear) é o esforço por garantir transparência, atendendo aos critérios de origem e sustentabilidade exigidos pelo Decision Maker. Tune (Sintonizar) usa da engenharia têxtil para sintonizar o tecido com o toque e o conforto psicológico que o consumidor pede. Transmission (Transmissão) resulta em peças com alto valor de design e informação para gerar a conexão com o System Player.
VESTINDO A MESA DE COMANDO
O conceito de emotioneering, combinação das palavras emotion e engineering, não nasceu na indústria da moda. Foi criado no início dos anos 2000 pelo designer e roteirista David Freeman para descrever técnicas destinadas a provocar emoções em jogadores de videogame. A ideia posteriormente atravessou outros campos do entretenimento e chegou a áreas como marketing e neuromarketing. É a palavra que a WGSN vem adotando para a temporada.
Com o comportamento menos linear do consumidor, fica difícil projetar as novas coleções, especialmente no jeans. As têxteis apontaram múltiplas direções de moda. Porém, destacam que não se trata de adivinhar o que o cliente sente o tempo todo, mas mapear o que ele busca sentir quando consome a marca.
Toque, peso, caimento, conforto, cor, textura, modelagem e acabamento podem provocar determinadas sensações. Se o consumidor busca acolhimento, por exemplo, a resposta pode estar em uma modelagem mais envolvente e em um denim de toque suave, dizem os especialistas. Se procura praticidade, entram estruturas utilitárias e soluções funcionais. Para quem busca expressão, superfícies, volumes e acabamentos exuberantes atendem o perfil. E pode ser que o mesmo consumidor busque as três coisas para usar em momentos diferentes.
EMOÇÕES NA PRATELEIRA
A partir das apresentações de Canatiba Têxtil, Capricórnio Têxtil, Santista Têxtil e Santana Textiles, o GBLjeans montou uma lista de direções de moda que se repetiram.
-> Calças barrel e balloon : os contornos de casulo remetem à sensação de acolhimento no guarda-roupa emocional. Pleated denim para considerar.
-> Wide Leg : traduzem conforto, mas cedem espaço para as modelagens barrels e balloon
-> New Skinny : reformulada como uma calça reta super slim. Demanda tecidos com alguma elasticidade
-> Calças Relaxed, Fatigue e Double Knee : conforto também para os homens, sob forte influência do workwear e militarismo no estilo Fatigue (com bolsos rentagulares frontais e lapela nos bolsos traseiros) e Double Knee (com reforço duplo nos joelhos).
-> Bermudas : bermudas de comprimento longo para elas, e curtas (quase shorts) para eles
-> Jaquetas : de formas estruturadas, volumosas e com detalhes utilitário
-> Rendas : a delicadeza invade o denim por meio de aplicações sofisticadas de renda localizadas ou como decoração no entorno dos bolsos.
-> Recortes : no outro extremo, recortes, ribanas e amarrações são diretamente emprestados da moda esportiva para dar dinamismo a peças cotidianas.
-> Brilho e Rebeldia: jeans de exuberância tátil, traduzida em brilhos metálicos, franjas, detalhes em veludo, e jeans plastificado.
-> Detonados : volta dos rasgados, puídos agressivos e patches
-> Raw : conjuntos de denim limpo e praticamente sem intervenções de efeitos
-> Cowboy Set : volta do total denim em estilo western 70’s, com jaqueta ou camisa e calça de denim coordenadas
-> Barras : prevista a descontração, com barras desfeitas, e o peso estruturado das barras dobradas
-> Camisas : renovadas com golas de construções diferenciadas e barras desfiadas
-> Saias : foco em funcionalidade e design cinético por meio de fechos e zíperes laterais
-> Denim Plastificado e Resinado: inovação mediante acabamentos plastificados ou resinados de alto brilho, rementendo ao visual de couro e cobertura translúcida




















