Estudos globais mostram consumidor mais exigente e, no Brasil, Walter Rodrigues aponta essência como ativo de marca

Depois de anos de expansão acelerada, com aumento de preços e do consumo aspiracional, o mercado de luxo entra em uma fase de redefinição. Análises mais recentes da Bain & Company com a Altagamma, do Boston Consulting Group (BCG) com a Altagamma e da McKinsey com o Business of Fashion (BoF) convergem ao apontar que a indústria do luxo precisa reconstruir novo valor em um ambiente de consumo mais seletivo do que jamais foi antes.
Os estudos indicam que o mercado de luxo continua a crescer em valor, ainda que com taxas moderadas. A perspectiva de futuro aparece no relatório The State of Luxury: What US and Chinese clients reveal about the sector’s future, da consultoria McKinsey em parceria com o site Business of Fashion. O relatório projeta que o mercado global de luxo poderá atingir US$700 bilhões até 2030. Esse avanço corresponderá a crescimento anual entre 4% e 6%, desde que as marcas atendam condições como status, conexão emocional, exclusividade, experiências e novas formas de descoberta.
Para a conclusão, a pesquisa ouviu 2 mil clientes dos Estados Unidos e da China, os dois maiores mercados de consumo de luxo do mundo.
No estudo, Bain & Company e Altagamma estimam o setor de bens pessoais de luxo — moda, artigos de couro, calçados, joalheria, relógios e beleza — em US$410 bilhões em 2025. A estimativa de valor abrange dados de vendas, desempenho das empresas, indicadores econômicos, entrevistas com executivos e inteligência setorial.
SEM INFLUENCIADORES
Já o estudo do Boston Consulting Group com a Altagamma destaca que os consumidores de luxo estariam mais atentos ao produto e menos dependentes de influência, como celebridades ou a força individual de diretores criativos. Qualidade, design, materiais, durabilidade, personalização e relação entre preço e valor entregue ganham peso na decisão de compra.
O estudo ouviu 7 mil consumidores de 10 mercados. Brasil está no grupo junto com Estados Unidos, Reino Unido, França, Itália, China, Japão, Coreia do Sul, Índia e Oriente Médio. Contempla ainda entrevistas com VCIs (Very Important Clients) e executivos do setor, além de cruzar dados com a base da Altrata/Wealth-X, com cerca de 150 mil indivíduos de altíssimo patrimônio.
MÉDIOS ACHATADOS
Conforme o relatório da McKinsey, o novo cenário do luxo provocou o esmagamento do mercado intermediário, que chama de mid-market squeeze. Marcas de luxo de médio porte perderam valor sob a pressão cruzada do fast-fashion de alta qualidade e do ultraluxo. A análise indica que marcas de médio porte correm risco de viabilidade se não conseguirem financiar investimentos massivos em tecnologia e marketing para competir.
Para as marcas que disputam o segmento de luxo da moda, a pergunta será por que o produto que desenvolvem merece ser desejado.
DILEMA NO BRASIL
Ao abordar o segmento de luxo no Brasil em sua palestra de abertura da feira Inspiramais-SP, o pesquisador e designer Walter Rodrigues afirmou que o consumidor atual não abandonou o desejo pelo luxo. Mas mudou a régua de avaliação. Na visão dele, a resposta das marcas está na essência tratada como a capacidade de ter seus códigos reconhecidos, preservar identidade e transformar qualidade, matéria e design em valor percebido.
A riqueza volta a estar na matéria-prima, na construção, na modelagem, na precisão da forma e na coerência da marca. A essência passa a funcionar como um ativo estratégico, afirma. Sob o tema Essência, Rodrigues desenha dois caminhos de desenvolvimento aparentemente opostos.
De um lado, o purismo, com formas limpas, geometria, matérias nobres, cores sofisticadas e design sem excessos. De outro, o popismo, como um novo maximalismo em volumes, cores intensas, estampas, bordados, texturas e referências históricas reinterpretadas. Recorrentemente, Walter Rodrigues citou na palestra as novas coleções de Chanel, Dior, Valentino, Tom Ford, Balenciaga e Chloe entre outros exemplos do reset para o novo luxo.
foto: desfile mais recente da Chanel




