Relatório da Fashion for Good aponta gargalos de design e triagem para reciclagem diante das novas regras europeias

A organização Fashion for Good, em parceria com a Circle Economy, divulgou a primeira fase do estudo Closing the Footwear Loop, que analisa os principais obstáculos à circularidade na indústria de calçados. O levantamento contempla um alerta para marcas e fabricantes, a partir do recorte que trata do mercado da União Europeia, que descarta 1,2 milhão de toneladas de calçados por ano. Metade dos calçados descartados na região é irreciclável, afirma o estudo. Esse é um gargalo grave porque as regras de Responsabilidade Estendida do Produtor (EPR) passam a valer rigidamente para o setor a partir de 2028.
Ao mapear o fluxo de resíduos pós-consumo com foco nos produtos que não conseguem retornar ao mercado de segunda mão, o estudo da Fashion for Good joga luz sobre o “ponto cego” do descarte da indústria de calçados. Identifica pela primeira vez a real composição dos calçados que vão para o lixo e o nível de eficiência das tecnologias atuais de triagem automática com vista à reciclagem.
LIXO CRÔNICO
De acordo com o relatório da Fashion for Good, 50% dos calçados coletados na União Europeia não podem ser reaproveitados devido a danos, desgaste excessivo ou perda do par correspondente. Outros 4% estão contaminados e, portanto, inadequados para o reaproveitamento. Do total descartado, 46% encontram destino no mercado de revenda.
O problema europeu escala diante da produção global que atingiu 23,9 bilhões de pares em 2024, conforme dados da World Footwear. Desse total, o continente europeu responde por 2,3% da produção global – algo em torno a 550 milhões de pares por ano. Mas, em consumo, só os países da União Europeia absorvem 2,06 bilhões de pares de calçados por ano, ainda de acordo com a World Footwear. Sem contar os estoques mortos das companhias, devoluções de e-commerce que não voltam ao estoque e produtos importados que são descartados antes mesmo de chegar ao varejo.
Se a Europa, que tem infraestrutura avançada de coleta, não consegue fazer a triagem ou reciclar os calçados devido ao design complexo, o desafio se estende para as cadeias produtivas de todo o mundo.
DESIGN COMPLEXO
Segundo os pesquisadores, o principal obstáculo não está na falta de interesse por materiais reciclados, mas na própria engenharia dos produtos. Um único tênis de alta performance pode reunir mais de 40 materiais diferentes e até 65 componentes distintos, frequentemente unidos por colas permanentes. Na amostra analisada, 51,9% dos calçados utilizavam sistemas de colagem que dificultam ou inviabilizam a desmontagem industrial.
Outro entrave identificado está nas tecnologias de triagem automatizada. Os testes realizados com sensores ópticos e sistemas de infravermelho próximo (NIR) mostraram que grande parte dos solados pretos não consegue ser reconhecida pelas máquinas devido ao uso do pigmento conhecido como carbon black. O material absorve a radiação infravermelha em vez de refletir o sinal, tornando o componente praticamente invisível para os equipamentos de separação. Como resultado, 37% dos materiais presentes nos solados avaliados não puderam ser corretamente classificados.
Para os autores, os resultados mostram que a circularidade na indústria de calçados precisa começar na etapa de desenvolvimento dos produtos. Entre as recomendações estão a adoção de princípios de design para desmontagem, a substituição de adesivos permanentes por sistemas reversíveis, a eliminação de pigmentos incompatíveis com tecnologias de triagem e a implementação de passaportes digitais que permitam identificar com precisão a composição dos materiais.
PRÓXIMAS ETAPAS
Apesar dos desafios, o relatório aponta oportunidades de negócios em áreas como reparo, recondicionamento e reciclagem especializada. Cita o caso da marca Veja que mantém um serviço próprio de reparos que recupera mais de mil pares por mês. Já a Dr. Martens desenvolve programas de revenda de produtos reformados. Na área tecnológica, a francesa Cetia trabalha em sistemas automatizados de desmontagem utilizando inteligência artificial, robótica e escaneamento por raio-X.
As duas próximas etapas do projeto Closing the Footwear Loop incluem o lançamento de um guia de design circular voltado ao setor calçadista e a validação de tecnologias de reciclagem mecânica e química em escala piloto.
O consórcio responsável pelo estudo envolve 22 empresas. Do total, 15 são marcas de moda ou varejistas, algumas concorrentes diretas: Adidas; Inditex (controladora da Zara e da Bershka, entre outras redes); On Running; Puma; Tommy Hilfiger; Dr. Martens; Lululemon; Reformation; Target; Zalando; Deichmann; Decker Brands; Otto Group; Vivobarefoot; além da Footwear Innovation Foundatio, braço de inovação da FDRA (Footwear Distributors and Retailers of America
Outros 4 parceiros são empresas que forneceram tecnologia de automação, triagem óptica e processamento industrial para realização das análises do projeto: Cetia; Matoha & Picvisa; The 8 Impact; e a consultoria Circular.Fashion.
Mais 3 parceiros são organizações globais que atuam na governança institucional: The Footwear Collective; Global Footwear Future Coalition (GFFC); e Global Fashion Agenda (GFA).




